
Por Allan Brito | Edição: Aruanã Instituto Pan-Amazônico

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27 de fevereiro de 2026
Como se privatiza um rio? O recado da barqueata que barrou a dragagem no Tapajós

O capital financeiro tem um talento poético/perverso para batizar seus crimes. Eles nunca chegam e dizem: "olha, nós vamos rasgar a sua terra, envenenar sua água e matar o seu futuro". Jamais. Eles usam gravata, são enviados em armários refrigerados em Brasília ou em Chicago e digitam palavras assépticas, burocráticas.
Eles digitam: "Concessão de hidrovia".
Eles publicaram: “Decreto 12.600/2025”.
Eles justificam com a palavra mais feia da língua portuguesa: "Dragagem".
Essa semana, o presidente Lula revogou o Decreto 12.600/2025. A canetada em Brasília encerrou, ao menos por enquanto, a ameaça imediata sobre o Rio Tapajós. Mas engana-se quem pensa que a vitória nasceu de um súbito despertar de bom senso nos gabinetes, como se Brasília tivesse apenas notado a hipocrisia de privatizar o Tapajós.
Entregar o rio seria caminhar na contramão dos avanços prometidos na COP30, sediada aqui mesmo no Pará, e implodir a incessante tentativa do Brasil de se projetar como líder global no enfrentamento das crises climática e ambiental. A revogação foi forjada no Baixo Amazonas, onde as comunidades tradicionais provaram, mais uma vez, que o capital tem dinheiro para ditar as regras no papel, mas é incapaz de apagar a resistência de quem tem o rio como condição inegociável de vida.
Para entender o tamanho do que foi barrado, é preciso olhar para as planilhas financeiras. A gente usa a palavra "giro" para coisas rotineiras. O giro da maçaneta. O giro do ponteiro do relógio. Mas nos gabinetes climatizados de Brasília, "giro" ganhou um novo significado. Eles batizaram o plano estratégico do "Giro Logístico do Arco Norte".
Parece nome de movimento de ginástica, mas na prática, significa virar o mapa do país de ponta-cabeça para economizar centavos no frete da soja. O agronegócio pode enviar a safra do Centro-Oeste até os portos do Sul e do Sudeste. A distância consome margem de lucro. A solução traçada nas planilhas financeiras foi eleger a bacia amazônica como calha principal de escoamento para a Ásia e a Europa.
A lógica do capital traz uma consequência imediata. Aqui no Pará, a gente sabe como essa mecânica funciona: o barateamento do frete pelo rio Tapajós atua como um magnético para o latifúndio. Frete logístico barato estimula a abertura de novos trabalhos. Mais produção de soja exige mais colapso da floresta. Esse giro logístico joga gasolina na expansão do desmatamento diretamente sobre a Amazônia. Para a rodar, publicaram o Decreto 12.600/2025. Esse pedaço de papel autorizava a concessão do rio à iniciativa privada. Eles entregariam nossas águas para as empresas realizariam uma "dragagem".
Dragagem significa descer máquinas de escavação até o leito do Tapajós. Arrancar a areia, aprofundar o canal, garantir que os supernavios das tradings naveguem o ano inteiro, atropelando o pulso milenar das secas e das cheias. Junto com a areia, as dragas girariam o lodo, acordando décadas de metais pesados e mercúrio decantados pelo garimpo. O veneno entra em suspensão. O plâncton engole. O peixe acumula. A comunidade ribeirinha serve o peixe no jantar. Era o balanço financeiro da multinacional garantido às custas do envenenamento em massa no prato das famílias.
Assistiríamos não apenas à privatização de um rio, mas ao assassinato de uma cosmologia.
Para os Munduruku, Kayapós, Panarás e Arapiuns, a água carrega ancestralidade. O Tapajós abriga lugares sagrados, moradas de espíritos e a história de quem habitava esta terra muito antes de existir cartório e CNPJ.

Fonte: Coletivo Apoena Audiovisual
Esses povos desceram para Santarém em mais de 1.200 indígenas. Quando as rodovias ficaram pequenas para o tamanho do ataque, ocuparam as águas. Fizeram uma barqueata. Canoas de madeira contra comboios de ferro. Corpos pintados de urucum barrando montanhas flutuantes de mercadorias destinadas a porcos alimentares no exterior (leia-se "porcos" nos dois sentidos que essa palavra pode proporcionar).
Foi por isso que mais de 1.200 indígenas desceram para Santarém. Quando as rodovias ficaram pequenas para o tamanho do ataque, eles ocuparam as águas. Fizeram uma barqueata. Canoas de madeira contra comboios de ferro. Corpos pintados de urucum barrando montanhas flutuantes de mercadorias.
Não se arrasta a identidade de quem sabe que o rio é parente. O Tapajós não vai virar uma rodovia corporativa sem que a história do Brasil sangre, mais uma vez, em suas águas. A barqueata de Santarém deixou um recado claro para o imperialismo e para Brasília: a água que o capital tenta domar é a mesma que tem força histórica para afogá-los. O rio segue correndo, e nós seguimos vigilantes.
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